o caminho para o bar faz-se por umas escadinhas minúsculas. o caminho para o bar faz-se por uma série de manos que nos imploram “não te estou a pedir dinheiro, sir, estou a pedir-te comida. há uma loja já aqui”. subimos as escadas para ir pagar rodadas neste bar horrivel, passamos o porteiro que assegura que lá acima os pobres não vao chatear ninguem.
a única forma de viver uma “vida ocidental confortável” em cape town (de resto, em qualquer parte do mundo) é desenvolver uma relação de absoluta aceitação e indiferença perante a pobreza. o tipo que te limpa o prédio, que te estaciona o carro, que apanha as uvas dos vinhos que saboreias, que te pede trocos a cada esquina e a cada semáforo, que dorme no relvado dos parques que te dizem para evitar, que te partirá as janelas do carro se deixares sequer uma sanduiche à vista, que mata e morre lá longe nas townships – tornar esses corpos magros tão inertes como as paredes e o asfalto, fazê-los desaparecer tornando-os parte da paisagem urbana. o design, bandeira da cape town hipster e cool, tem essa função de poder. encher os olhos numa mente oca. desenhar a realidade que os ricos querem ver. por entre tanta “arte” e criatividade, estreitar as brechas que dão vista para a injustiça. se não surgiu ainda, está para surgir aqui mesmo esse designer de sucesso, empreendedor exemplar, que vai desenhar o arame farpado e as vedações electrificadas de aspecto aprazível e pacífico e glamouroso.

lojas em que um continente inteiro, um mundo cheio de mundos, é comodificado, reduzido a um código de barras. afrika craft, feritility dools da tribo sei la das quantas, Africa jewells.
o caricato extremo hispter rodeado de malta a lutar pelas moedas de quem estaciona. passam passos com sapatos cujo preço daria para estes putos que tocam percussão reciclada viver durante anos.
com os iphones feitos com os minerais roubados a esta terra e os mineiros assassinados sobre esta terra por protestarem contra a morte em vida. barzinhos hipsters e ouvir fleet foxes e covers jazzy de velhos hits e canções em francês e cesaria evora em loop. um vazio aflitivo – é tudo o que há por trás desta aterradora obcessao com a imagem. o triunfo do design.

mas por trás do capitalismo cool e maquilhado há esse medo, ténue e teimoso como a neblina matinal da cidade, de que basta as nossas irmãs e os irmãos que habitam as townships se revoltarem a sério e invadiram a cidade dos ricos e dos brancos, e é a guerra. é esse medo, aqui como em todo lado, que está realmente na base de qualquer programa de apoio social, habitaçao social, “combate à pobreza”, e todas as demais migalhas que os poderosos benevolentemente deixam cair do alto da sua mesa.

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